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Existe emoção ruim?

As emoções são a maneira que a nossa história tem de se comunicar conosco. Elas são tão valiosas quanto a comunicação entre os seres humanos, ou mais, visto que é a comunicação do ser humano consigo mesmo.

Antes de saber se existe ou não emoção ruim, precisamos entender por que as emoções existem no ser humano e para que elas servem.

Quando nascemos, somos limitados em recursos para lidar com o mundo. Isso nos torna vulneráveis ao ambiente, ficamos em uma posição de completa dependência de nossos pais para atender todas as necessidades, como saciar nossa fome ou sede e resolver sensações de calor, frio, dor e saudade. E, naturalmente, por mais que as pessoas ao nosso redor busquem atender tais necessidades, infelizmente muitas delas não são sanadas ou acabam sendo resolvidas de maneira incompleta. E isso gera dor.

Por mais que os responsáveis por garantir nossa sobrevivência busquem fazer de tudo para cuidar de nosso desenvolvimento com atenção, acolhimento e congruência, não está sob poder deles nos proteger da interpretação que temos em relação ao que acontece à nossa volta. Pois, da mesma forma que somos limitados em conseguir cuidar de nós mesmos na infância, a nossa capacidade de discernimento nos primeiros meses de vida também é extremamente ilógica e pautada em sentimentos, o que pode nos levar a interpretações equivocadas do mundo.

 

Essa interpretação de não atendimento de nossas necessidades passa a gerar uma angústia infantil, o que chamamos de ferida emocional, e é aí que as emoções aparecem. Elas são mecanismos de defesa para nos proteger de sermos feridos novamente. Sem as emoções, ficaríamos completamente vulneráveis e seríamos machucados diversas vezes a ponto de adoecermos psicologicamente.

 

Então, quando olhamos para as emoções, precisamos compreender que elas são as nossas melhores aliadas desde nossa infância, pois elas literalmente nos protegeram de sermos feridos novamente.

 

Um exemplo prático para entender essa defesa é olhar para uma criança que, na infância, interpretou o meio à sua volta com uma sensação de traição. Ela não sabia se podia confiar nas pessoas que estavam cuidando dela e precisava encontrar uma maneira de verificar se poderia confiar ou não em alguém. Para resolver essa sensação de traição, a criança começa a adotar a emoção do medo como defesa, mantendo sempre um pé atrás com as pessoas e testando as relações para ver se elas responderiam de maneira congruente. A criança passou a ser mais vigilante e observadora com as pessoas para verificar possíveis discrepâncias de comportamento que poderiam anunciar uma possível nova traição.

O medo começa a assumir o comando do comportamento dessa criança como uma maneira de antecipar possíveis traições, e o mundo à sua volta passa a ser visto com desconfiança. A criança cresce e torna-se um adolescente inseguro que não sabe se pode sequer confiar em si mesmo, porque às vezes ele mesmo sente que não consegue atingir o que havia imaginando de sua performance. Já que suas ideias nem sempre são as melhores, é mais interessante não correr o risco de se expor.

É melhor também não dizer muito o que pensa ou o que sente, pois dessa forma se protege de ser traído nas relações. E quando entra em relações na fase adulta, fica buscando provas de que o amor que recebe é mesmo confiável, genuíno e profundo. E principalmente se a pessoa que está ao seu lado é alguém que não representa uma ameaça. Em sua carreira, pode ter dificuldade de delegar funções, por receio de as pessoas não entregarem conforme combinado, passando a desenvolver controles para checar se as pessoas realmente fizeram o que era combinado. E a vida segue cheia de desconfianças, preocupações, apegos, inseguranças e ansiedade.

Mas a vida também segue com capacidade de fazer planejamentos, avaliações de risco, prudência, cautela, validação de dados, comprometimento, lealdade com as pessoas de seu círculo e profunda conexão com os valores de grupo. Cada passo dado é calculado, fazendo com que suas escolhas sejam mais seguras e palpáveis. Tudo isso se reverbera em um zelo profundo com quem ama, seja família ou amigos, e uma carreira construída com solidez.

Todo esse comportamento, tanto positivo quanto negativo, manifesta-se como uma defesa da ferida emocional gerada na infância. Ou seja, o medo foi o recurso para esta criança LITERALMENTE não se sentir traída novamente.

Acolher as emoções que se apresentam em nosso comportamento e entender o que elas querem nos comunicar é o caminho para se libertar dos comportamentos negativos que elas podem gerar; mas, sem consciência destas emoções, não conseguimos compreender o que nossa criança interior está sentindo e do que ela está tentando nos proteger.

Mesmo quando estamos tristes ou com raiva, desvalorizando-nos, criticando-nos ou fugindo de nós mesmos, tudo isso tem muito valor se APRENDERMOS A DAR OUVIDOS A ESTAS EMOÇÕES, compreendendo o que elas querem nos mostrar.

Quando compreendemos nosso mecanismo de defesa emocional e qual é nossa ferida, podemos amadurecer a maneira como lidamos com ela e abrimos a possibilidade de explorar o potencial de nossas emoções com DIRECIONAMENTO EMOCIONAL, ao invés de sermos reféns de suas escolhas. Afinal, as emoções nos trazem RECURSOS comportamentais, tanto positivos quanto negativos, e o que leva nossas emoções a se manifestarem de maneira mais produtiva e saudável é o AUTOCONHECIMENTO.

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Um filho de 4,5 metros

Um dos maiores ensinamentos que a maternidade me trouxe foi uma percepção diferente do tempo.

Eu sempre senti uma angústia muito grande por ficar longe do meu bebê, embora a literatura cisme em chamá-lo de criança (só porque ele já tem 3 anos, bobagem!).

A primeira saída sem ele foi quase um filme pastelão. Marido ligou a caminho de casa, com um casal de amigos que encontraria em uma convenção, e eu saí correndo para comprar algumas coisas que adultos normais comem: antepastos, carne, vinho… Em casa, estávamos nos últimos 2 meses à base de produtos de milho (porque aumenta o leite), água de coco, ensopados encorpados (insira aqui tudo que sua cultura fala para as recém-mães comerem ou tomarem).

Fui correndo para voltar o mais rápido possível, esbarrando nos outros seres humanos. Desacostumada que estava, convivia apenas com minha mãe, marido e um serzinho de 50 cm.

As saídas eram apenas para pediatra e os 150 profissionais que me ajudaram na tarefa mais desafiadora até então, amamentar meu filho.

Naquele supermercado, foi uma das primeiras vezes em que senti o quão diferente estava a minha vida.

E, sobretudo, o quão diferente era da realidade do meu marido. Ele estava voltando de São Paulo, cidade que está a 100 km da minha casa, mas que, naquela época, estava situada em outra galáxia. Já estava tranquilamente adaptado à sua antiga rotina, conversando com adultos sobre outros assuntos que não fossem leite-cocô-sono-arrotar-dormir-recomeça.

Ainda na fila, me sentindo inadequada naquele lugar, lembrei o quanto perguntava, incrédula: como você consegue passar o dia longe dele?

A cena se repetia. No final do dia, ele chegava, sentava na minha cadeira de amamentação com o bebê no colo, olhando com uma cara que eu ainda não conhecia para nosso filho, e eu do lado me perguntando: como ele conseguia sair de manhã e só voltar agora?

Mistério!

Ele nunca conseguiu me responder, são aquelas coisas incríveis da vida que apenas são! O pai pode ficar longe!!!

Ele também tinha suas dúvidas: tentava mensurar a minha dor ao amamentar. Tentei explicar trazendo para a realidade dele – mas não dá para escrever aqui e por favor, se não for íntimo, não me pergunte! Só posso falar que ficou bem claro e, depois disso, ele segurou ainda mais forte a minha mão a cada mamada e parou de reclamar de fazer depósitos para a consultora de amamentação.

Naquela época, nas primeiras semanas, Benicio estava com os 50 cm que mencionei. Hoje, com 3 anos, quase 1 metro. Se ele crescesse neste ritmo, teria 4,5 m aos 18 anos!

Os primeiros anos de vida são os anos em que a criança mais aprende e mais cresce, mas tem muito sofrimento também. Depois que fui mãe e me interessei por estudar sobre bebês, nunca mais deixei alguém falar “ai, que ternura” ou “queria ter essa vida sem boletos”. De imediato, a pessoa já ganha um tratado sobre angústias de morte, dores de separação, dores físicas excruciantes, sensação constante de queda… e a lista continua.

A maior dor desses serezinhos talvez seja porque tenham uma percepção de fusão com a mãe, nestes primeiros anos. Ele e a mãe são um só, não só no período da gestação, mas nos primeiros anos também. Aliás, por uma questão de evolução, nós nascemos uns 3 meses antes do que era para nascer. E por isso deveríamos literalmente respirar o ar deles nestes meses fundamentais.

E o mundo não gosta disso, não.

A mãe precisa voltar logo a ser esposa e profissional.

Pergunte para uma mãe que amamentou até 2 anos ou mais (inclusive recomendação da OMS) e veja quantas barreiras ela precisou vencer.

Ela certamente lutou muito, com toda força de uma mulher, para não fazer parte da estatística de 50 dias de aleitamento. Cinquenta dias, o que fazem as brasileiras estarem devendo, em média, 680 dias de grude completo e do melhor alimento do mundo para seus filhos.

Quando você amamenta, ou você faz uma logística complicadíssima ou você precisa estar bem perto do seu filho, pelo simples fato de o seu peito começar a explodir na hora da próxima mamada. E a natureza lembrando que temos que estar no tal do grude e que todo o resto deveria esperar.

Mas… quem ouve essa tal da natureza? Marcamos a hora do nosso filho nascer e queremos/precisamos logo voltar a tarefas da nossa vida.

Para criar um filho, é preciso de altruísmo; do pai, que precisa entender que, sim, perdeu a esposa nestes primeiros anos; e da mãe, que perdeu a vida (ai, que dramático). Mas sim, morre a mulher, nasce a mãe. Uma outra pessoa. Prioridades, medos, olhares completamente diferentes.

E, talvez, seja nesse momento que a maturidade dos pais mais vai contar. O quanto eles foram crianças que conseguiram minimamente passar por todos esses possíveis traumas e irão conseguir suportar tamanha dedicação neste momento. A mãe precisa cuidar do filho e o pai precisa cuidar da mãe.

Não conseguimos, na maioria das vezes. Muitos casamentos acabam antes de o filho completar 2 anos.

E sua tia vai falar que “tem que se arrumar”, “tire o pijama e desmama esse menino”, “você amamentou só um mês e está aí perfeita”. Mas não, estamos feridos por dentro, porque somos imperfeitos, cuidados por seres imperfeitos, tentando melhorar a cada geração.

O recado que o Benicio recebeu do seu padrinho, ao nascer, pode resumir um pouco do que é a maternidade para mim: é ruim, mas é bom! Assim como a vida.

Por Luisa Mandetta.